Qual a causa de câncer de mama em mulheres jovens?


A causa de câncer de mama em mulheres jovens não é hereditária, como a maior parte das pessoas poderia imaginar.  Segundo um recente estudo feito pelo Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), constatou-se que 80% de casos de câncer de mama em mulheres com idades entre os 20 e 35 anos podem ser causados por mutações somáticas – alterações genéticas nas células da mama que não têm origem hereditária (quando a pessoa herda uma mutação genética dos pais).

 

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Mutações genéticas

 

Por ter diagnóstico mais difícil e ser pouco esperado, normalmente o tratamento nesses casos é iniciado quando a doença já está em estágio mais avançado e apresenta maior taxa de mortalidade do que em mulheres mais velhas.

O estudo analisou os casos de 79 pacientes do Icesp e IBCC com menos de 36 anos e diagnosticadas com cancro da mama.  Destas pacientes, “mais de 40% dos casos estudados apresentaram mutação somática em gene que codifica proteína de reparo de DNA, ou seja, o surgimento do câncer veio de um problema em algum sistema de reparo de DNA, que se originou na própria célula da mama e não foi herdado. ” – constatou a pesquisadora Maria Aparecida Kolke Folgueira, uma das responsáveis pelo estudo.

Por outro lado, treze pacientes (16,4%) apresentavam mutações germinativas nos genes BRCA1 e 2, que são alterações que têm a hereditariedade como base. O estudo identificou ainda outros genes herdados, que são menos comuns que o BRCA1 e 2.

 

O que são mutações somáticas nos genes?

Mutações somáticas ocorrem o tempo todo em nosso corpo, seja por metabolismo celular ou duplicação das células (replicação do DNA), entre outras causas. Esta tarefa é desempenhada por uma enzima específica, a DNA polimerase,  que tem a função de criar duas cadeias de DNA idênticas, a partir de uma única molécula de DNA original. Contudo, podem ocorrer alguns erros nessas replicações e a cópia feita pela DNA polimerase não ser fiel à original.

Estes erros feitos pelo DNA polimerase podem ser barrados e não passarem adiante. Para isto, existe um sistema de reparos de DNA.

“Os genes BRCA1 e BRCA2 codificam proteínas importantes que participam do reparo do DNA. Quando esse sistema não funciona, esse DNA fica mais propício a sofrer mutações, e o acúmulo delas gera uma célula alterada, neoplásica, que pode desencadear o câncer”, disse Folgueira.

De acordo com o estudo feito no Icesp, 43% dos casos de câncer de mama em mulheres jovens estão relacionados a mutações em genes desse sistema.

Com a análise dos dados, a equipe estabeleceu informações importantes sobre a ocorrência de cancro da mama causado por mutações somáticas em mulheres jovens. Folgueira explica que as células da mama, em especial, proliferam-se a cada ciclo ovulatório – proliferam-se e entram em apoptose (morte celular) –, o que faz com que elas tenham maior chance de uma mutação ao acaso.

“Se a célula prolifera bastante ela tem mais chance de ter uma mutação ao acaso e é isso que parece ocorrer nos casos que estudamos”, disse Folgueira.

 

Genes BRCA1 e BRCA2 e o caso de Angelina Jolie

O problema das mutações ao acaso se assemelha aos casos de mutações genéticas hereditárias, onde o mais comum são alterações nos genes BRCA1 e BRCA2. Eles ficaram mundialmente conhecidos em 2013, quando a atriz norte-americana Angelina Jolie anunciou ter se submetido à mastectomia bilateral. A mãe da atriz morreu de cancro nos ovários em 2007.

A atriz Angelina Jolie, que tem vários filhos, não gostaria de passar pelo mesmo que a mãe passou. Por isso, decidiu realizar um exame com base no sequenciamento genético e descobriu que tinha um risco de 87% de chances de desenvolver um câncer de mama e 50% de ter um câncer no ovário.

 

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Angelina Jolie com os filhos (© The Grosby Group)

 

“Quando soube que essa era minha realidade, decidi ser pró-ativa e minimizar o risco o quanto podia. Tomei a decisão de ter uma dupla mastectomia preventiva”, diz a atriz. “Comecei com os seios, já que meu risco de câncer de mama é mais alto que meu risco de câncer no ovário, e a cirurgia é mais complexa”, disse a atriz

Apesar do caso de Angelina Jolie ser hereditário, além de verificar que a hereditariedade não é a causa principal de câncer de mama em mulheres jovens, o estudo, financiado pela Fapesp,  constatou que em torno de 50% dos tumores apresentam mutações somáticas patogênicas em genes que controlam a transcrição gênica. Estes genes também controlam a síntese proteica, o que é ainda mais problemático por ser uma função em que é mais difícil dizer se está associada ao câncer de mama ou não.

Segundo a pesquisadora Folgueira, pouco se sabe sobre o aparecimento do câncer de mama em mulheres jovens e ele é considerado o tipo mais comum em jovens.  Para ela, a descoberta também abre caminho para novas linhas de pesquisa.

“Ainda assim fica a pergunta se são de fato apenas mutações somáticas ao acaso. Desde que nascemos estamos expostos a tudo, não é? O câncer de mama é o mais frequente em mulheres e um dos motivos pode ser porque as células proliferam bastante e há mais chance de errar”, afirmou Folgueira

 

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Outubro rosa – mês de conscientização do câncer de mama

O câncer de mama é o tipo mais comum entre as mulheres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o  cancro da mama mata mais de 500 mil pessoas por ano. A cada ano são diagnosticados mais de de 6.000 novos de cancro da mama em Portugal.

Estima-se que em 2018 haverá 59 mil novos casos no Brasil. Deste número, a incidência será principalmente nas mulheres que têm mais de 50 anos e já se encontram na menopausa. No entanto, 4,5% dos casos da doença acometem mulheres jovens, entre 20 e 35 anos de idade.

O estudo foi publicado na revista Oncotarget.

 

Fonte/ Fonte da Imagens: Cancer de mama em mulheres jovens, Cancer de mama Angelina Jolie, Oncologia em Portugal

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